A ciência é universal, mas as soluções devem ser locais

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CARLOS ALBERTO OLIVEIRA DE OLIVEIRA
ENGENHEIRO AGRÔNOMO, MESTRE EM AGRONEGÓCIOS
PROFESSOR DA FACULDADE DE TECNOLOGIA DO COOPERATIVISMO – ESCOOP
PESQUISADOR DA FUNDAÇÃO ESTADUAL DE PESQUISA AGROPECUÁRIA – FEPAGRO

Ao participar do Fórum Mundial da Associação Internacional para Gestão dos Alimentos e do Agronegócio (Ifama), em 2014 que ocorreu na Cidade do Cabo, na África do Sul, me deparei com esta afirmação do título em vários momentos. Neste fórum pessoas de todas as regiões do planeta debatem aspirações e desafios para melhorar e garantir a produção e distribuição de alimentos no mundo. Mesmo com esta pretensão coletiva e globalizada há um consenso: as soluções devem ser locais.
Voltando nossa atenção para o Rio Grande do Sul, é notável que a trajetória agrícola brasileira se confunde com a gaúcha desde o início do século XX e tem se alicerçado na capacidade empreendedora dos produtores e seu comprometimento no trabalho
com a terra. O desenvolvimento da ciência e o aporte tecnológico também vêm sendo fatores promotores da expansão produtiva, necessária para atender a demanda de alimentos que cresce em sintonia com o aumento da população.

O início da história da pesquisa agropecuária estadual ocorreu em 1919 com a criação da Estação de Seleção de Sementes de Alfredo Chaves, no município de mesmo nome, hoje Veranópolis. No início da década de 1940 havia 18 estações experimentais
públicas distribuídas pelo Estado. Estas estações foram alocadas em quatro institutos de pesquisa ligados à Secretaria da Agricultura e Abastecimento. No ano de 1994 foi criada a Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária – Fepagro, para congregar os institutos de pesquisa. Entre as suas finalidades básicas está implementar a política de pesquisa e difusão de tecnologia agropecuária do Estado.

Exemplos de resultados diretos da pesquisa desenvolvida na área agronômica foram os lançamentos de vários cultivares de trigo. Dentre esses, destacou-se o cultivar Frontana (1940), que entre outras características apresenta dois genes para resistência à ferrugem-da-folha. Este produto é considerado por pesquisadores e produtores um marco para o Brasil
e para grande número de programas de melhoramento com trigo no exterior. Outra contribuição da pesquisa agropecuária estadual foi o estudo que avaliou o efeito de inoculação da soja com bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico, comparativamente ao uso de adubos nitrogenados sintéticos. Este trabalho demonstrou que a utilização de nitrogênio não era necessária nas fórmulas de adubação da cultura. Em 1976, a indicação de adubo nitrogenado para a cultura da soja foi retirada das recomendações de adubação da Rede Oficial de Laboratórios de Análises de Solo (Rolas).

Neste mesmo ano praticamente 50% de toda soja produzida no País era oriunda do Rio Grande do Sul. A consolidação de infraestrutura de pesquisa e de política agrícola, abarcando mecanismos de preços mínimos para o setor primário, possibilitou o incremento da produção de trigo e a criação de uma estrutura com cooperativas agropecuárias. As atividades de pesquisa
regionalizadas propiciavam atendimento às demandas dos produtores cooperados e contribuíam com o desenvolvimento econômico e social das regiões. Além das ações estaduais, no arcabouço do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia ocorreu o
estabelecimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973. Responsável pela política nacional de pesquisa, a estatal possui forte identificação e atuação em nível local. O arranjo institucional então disponível, Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária e Embrapa, juntamente com as organizações de assistência técnica e extensão rural, possibilitou maior acesso ao conhecimento e tecnologias para produtores e otimizou o aproveitamento das áreas agrícolas.

Como resultado, o setor primário tem se mantido com status de lastro econômico e social para o Brasil. Atualmente a produção de grãos nacional está em torno de 200 milhões de toneladas, o País é um dos principais produtores e exportadores de carne
bovina, de frango e suína. O agronegócio representa mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e responde por mais de 27% dos empregos gerados no País. Contudo, para avançar, o agronegócio além de superar os gargalos que compartilha com os demais setores da economia, como ampliação da infraestrutura e redução da carga tributária, precisará contar com mais pesquisa agropecuária.

Em muitas regiões do País existem áreas degradas com pastagens e subutilizadas. No Rio Grande do Sul 7,2 milhões de hectares são cultivados com soja, milho, arroz e feijão. Na safra de inverno 1,3 milhões de hectares são cultivados com trigo, cevada e aveia. A área restante (5,9 milhões de hectares) não utilizada com as principais culturas de inverno representa um potencial a ser explorado. Atualmente, o solo é mantido exposto ou com plantas de cobertura. Um dos temas de pesquisa que pode colaborar para elevar a produtividade das áreas já utilizadas para fins agrícolas e redução de novos desmatamentos
é a integração das atividades de lavoura, pecuária e floresta. Há pesquisas já em andamento nesta área.

No entanto, mesmo no RS existe uma diversidade de condições edafoclimáticas (solo, clima, relevo, etc.) e culturais que exigem aprimoramentos e adaptações regionais das tecnologias para que se tornem efetivas e aplicáveis. Outro desafio permanente é focar a pesquisa também para o produtor rural de baixa renda e sua família. Dados indicam que a pobreza ainda atinge 32%
da população rural, comparativamente o dobro do percentual alcançado na população total do País. Para melhorar esta situação, a ciência deve se converter em conhecimentos e tecnologias que os agentes possam se apropriar e sejam empregados nas comunidades.

A continuidade da participação do RS na vanguarda do agronegócio tem no investimento em pesquisa um requisito básico. Nesse sentido, a implantação de um Programa Estadual de Desenvolvimento Científico-Tecnológico, com vinculação de verbas
no orçamento, em percentuais do PIB e com planejamento regionalizado pode favorecer a constante evolução das atividades produtivas do RS. O avanço da presença dos entes privados na pesquisa agropecuária sugere que sejam construídas agendas conjuntas de estudos, da mesma maneira a comunicação com os agentes produtivos, partícipes e receptores das inovações é estratégica.

O aprofundamento do debate sobre os rumos do agronegócio e os direcionamentos da pesquisa voltada ao setor se faz necessário. Os desafios motivadores envolvem realizar ciência e fazê-la presente nas atividades produtivas. O processo de aproximação e cooperação entre os diferentes agentes envolvidos pode acrescentar em soluções para dificuldades locais compartilhadas.