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Escoop realiza intercâmbio no Uruguai
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Cooperativas triplicam no Uruguai com auxílio de políticas públicas

Conhecido por ser pioneiro em medidas relacionadas com direitos civis e democratização da sociedade, o Uruguai congrega atualmente cerca de 3.500 cooperativas e conta com aproximadamente 1,3 milhão de associados, o que representa 37% da população do país. Ao todo, essas cooperativas que atuam em nove ramos diferentes geram 48 mil empregos diretos e representam quase 3% do PIB uruguaio. Nos últimos nove anos, o número de cooperativas triplicou no país. Este é o cenário que os alunos do Curso Técnico em Gestão de Cooperativas da Escoop conheceram na tarde dessa terça-feira (5/6), durante visita ao Instituto Nacional do Cooperativismo do Uruguai (Inacoop), entidade jurídica pública não estatal responsável por propor, assessorar e executar a política nacional de cooperativismo.

O presidente do Inacoop, Gustavo Bernini, explica que esse crescimento no número de cooperativas nos últimos nove anos se deve em função da adoção de políticas públicas que favoreceram o desenvolvimento e a criação de novas cooperativas no Uruguai. A referência ganha destaque nas instalações da sede localizada próxima à Praça da Independência, na região central de Montevidéu.

Bernini comenta que mesmo o instituto sendo uma entidade pública, não se trata de um órgão estatal, o que significa que apesar de depender do Ministério do Trabalho e Segurança Social para se relacionar com o parlamento uruguaio e prestar contas, o Inacoop é regulado pelo direito privado e não pelo direito administrativo (público) em seus contratos com terceiros e relações trabalhistas. “Atuamos regulados pelo direito privado, isso nos dá certa flexibilidade, temos autonomia como instituto para propor políticas públicas, mas politicamente dependemos do Ministério do Trabalho como Poder Executivo”, afirma.

O dirigente uruguaio ressalta que os principais objetivos em nível estratégico do Inacoop atendem primeiramente a questão da educação, onde Bernini enfatiza que se constroem os valores, a identidade e a cultura da população. “O segundo objetivo principal é entender que a política pública tem que ser aquela que gere contextos favoráveis para o desenvolvimento das organizações populares. O que temos que fazer é gerar condições favoráveis para o desenvolvimento humano com os valores cooperativos e por isso os nossos principais programas são de fortalecimento das organizações representativas do movimento cooperativo no Uruguai”, complementa.

Contribuição das Cooperativas

Os fundos públicos que o Inacoop recebe e o pagamento que as cooperativas fazem de forma obrigatória, permitem que o instituto desenvolva programas de treinamento e assistência técnica, além de fornecer apoio financeiro.

Para o professor da Escoop, Gerônimo Grando, a Inacoop atua de forma similar ao Sescoop no Brasil, principalmente no que refere ao papel de destaque na educação cooperativa. “A visita nos permite conhecer o modelo de funcionamento e a importância do Inacoop para o desenvolvimento do cooperativismo uruguaio. A instituição carrega entre suas principais responsabilidades o objetivo de impulsionar a formação de cooperativas para a gestão de negócios e a promoção da educação cooperativa em todos os níveis de ensino público e privado. E nada mais apropriado que a Escoop, como a primeira faculdade brasileira voltada exclusivamente ao ensino, pesquisa e extensão em cooperativismo, proporcionar esse intercâmbio internacional para aproximar as relações de agentes responsáveis pelo presente e o futuro do cooperativismo na América do Sul”, argumenta Grando.

Para o graduando da Escoop, Florindo Leonir da Silva Homem, o intercâmbio é interessante porque propicia um aprendizado diferente, através das visitas realizadas nas cooperativas e entidades ligadas ao setor no Uruguai. “Poder conhecer e questionar como funciona o cooperativismo uruguaio é sem dúvida uma experiência única. Uma das principais diferenças que eu notei se refere às cooperativas de Trabalho, que no Uruguai recebem um apoio do Ministério do Trabalho que facilita o desenvolvimento econômico e social das cooperativas que atuam no ramo, com uma relação pacífica e harmoniosa, algo que não temos ainda no Brasil, apesar da lei 12690”, explica.

Florindo também comenta sobre as diversidades encontradas em relação aos ramos Habitacional e de Crédito. “No Uruguai percebemos que as cooperativas habitacionais são muito fortes, entretanto o ramo Crédito não é tão representativo como no Brasil. Essas diversidades e características próprias do cooperativismo de cada país servem como uma aprendizagem, através da qual devemos buscar levar daqui essa experiência com o objetivo de absorver os pontos positivos do modelo cooperativo uruguaio, de forma que possamos colaborar sempre com o desenvolvimento do sistema cooperativista brasileiro”, enfatiza.

Panorama do agronegócio no Uruguai

Uma verdadeira imersão ao segmento do agronegócio uruguaio. Com essa proposta, o representante da Unidade Comercial das Cooperativas Agrarias Federadas (CAF), Federico Riani, apresentou o panorama do setor no país sul-americano. De acordo com o censo de 2008, 36% dos produtores agropecuários são associados de uma cooperativa. As cooperativas agrárias industrializam e comercializam a produção de 2 mil produtores leiteiros, o que representa 80% da produção nacional de leite e seus derivados para abastecer o mercado interno e internacional.

Na produção agrícola, as cooperativas são responsáveis por 30% da produção de trigo e 20% da produção de soja. Excetuando o cultivo de arroz, os serviços de armazenamento administrados pelas cooperativas alcançam uma capacidade instalada que cobre cerca de 70% da produção de grãos do país. Através da Central de Lã Uruguaia o sistema comercializa e industrializa cerca de 15% da produção nacional de 1.800 produtores de lã.

Os números reforçam o crescimento do agronegócio cooperativo no Uruguai nos últimos anos. Desde o início, a CAF tornou-se um novo interlocutor do setor agrícola do país, marcando um novo estilo de união e colaborando com uma contribuição diferenciada por meio de seus delegados nas instituições cooperativas agrícolas.

Desenvolvimento integral

Riani fala sobre o auxílio que a entidade presta aos produtores e a preocupação constante com a segurança alimentar, tema recorrente na pauta da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). “Ajudamos os produtores a permanecerem no setor por meio de sua integração nas cadeias globais de valor agrícola e agroindustrial, acessando melhor tecnologia e escala, levando em conta nossa crescente preocupação com a segurança e a soberania alimentar”.

No nível organizacional e econômico, Riani explica que a CAF promove o conceito de uma empresa profissional e eficiente. “Procuramos a intercooperação para gerar complementação produtiva e itens. Geramos linhas de pesquisa e estudos aprofundados, prospectivos em diversas áreas, para identificar estratégias que contribuam para fortalecer a competitividade das empresas cooperativas e também contribuir para o conhecimento e a tomada de decisões dos agentes nacionais e internacionais”, acrescenta.

Segundo o representante da CAF, o desenvolvimento de ações para modernizar as estruturas das cooperativas associadas facilita a incorporação de jovens qualificados, a identificação de oportunidades de negócio, a promoção de alianças estratégicas e a geração de oportunidades de intercâmbio e formação através de assembleias e reuniões anuais, fóruns e workshops.

Estiveram presentes durante a visita realizada à sede do Inacoop, o diretor executivo da Confederação Uruguaia de Entidades Cooperativas (Cudecoop), Gabriel Isola, além do diretor político do Inacoop, Pablo Perdomo, e o diretor executivo do Instituto, Danilo Gutierrez, além de profissionais responsáveis pela área de formação profissional e promoção social do Inacoop.

 

Cobertura internacional com o jornalista Leonardo Machado, direto do Uruguai.