Cooperativismo e pedagogia: entrelaces pela humanização do mundo do trabalho

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ROSANE OLIVEIRA DUARTE ZIMMER

PEDAGOGA, MESTRE E DOUTORA EM EDUCAÇÃO. PROFESSORA DA ESCOOP E PUCRS.

GESTORA DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO CÔNEGO JOSÉ LEÃO HARTMANN

Reconhecendo que a necessidade de repensar o humano e os seus humanismos não se encerra a guisa desta reflexão, consideramos validar a humanização como preceito aos modos de produzir educação, bem como de trabalho no século XXI. Em face disso, recolocamos a humanização na encruzilhada de questões que se mantêm em aberto e que, no entanto, carecem de reflexões mais pontuais. Perdoai-nos pelas generalizações.

O desígnio humanização, em tempos de liquidez, de modernidade tardia ou de pós-modernidade, assenta a contribuição freireana, do ‘ser mais’, como contraponto às históricas desumanizações.

A humanização de que nos referimos é um devir, que passa pela ruptura das amarras de ordem econômica, política, social, ideológica que nos condenam ao ‘ser menos’, a desumanização. Logo, é mister insistir que ao falar de humanização, invocamos nossa condição ontológica do ‘ser mais’ sem cair no fundamentalismo de nada mudar ou na

ingenuidade de que tudo é possível.

Kant, no clássico ensaio sobre o esclarecimento, aufklãrung, de 1773, apontava a saída humana de estado de menoridade. Lembrava que esta é a incapacidade de se fazer uso do próprio entendimento sem a direção de outro. A menoridade não se encontrava na falta de esclarecimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo.

Para o filósofo, não se vivia uma época esclarecida, aufgeklärten, mas de esclarecimento. Faltava muito para que a humanidade, em seu conjunto, estivesse em tal estado. “Sapere aude”, dizia ele. Igualmente, como nos alertava Kant, adentramos o novo século na urgente necessidade de compartilhar esclarecimentos que possibilitem humanizar o trânsito pela existência.

O pressuposto da humanização que aqui se postula, em tempos de entremeios de séculos, na segunda década do novo milênio, assenta-se como elemento de contribuição ao exercício de resistência, de tática, pela luta política da reinvenção cidadã. Trabalho e educação se interligam aí, quer pelos modos de aprender, quer pelos modos de produzir trabalho. Trata-se do princípio educativo invocado por Gramsci. Por essa via, as relações da educação com o trabalho vêm se constituindo artefato da Pedagogia.

De modo profícuo, percebemos que a cultura cooperativista que visa solidariedade, promoção do bem comum e coletivo, minimizar as desigualdades, assim como refuta a discriminação, integra muitos dos valores e princípios que integram o legado pedagógico humanizador.

O cooperativismo, na acepção de similitude com a Pedagogia humanizadora, é reconhecido como força de resistência, tensão, terceira via, ‘caminho do meio’ entre o capitalismo e socialismo. Por conseguinte, exemplar para se repensar e problematizar as dificuldades, os danos, os benefícios, os processos de relações com a vida humana que é originária da força do trabalho.

Pelo entendimento de que é preciso empreender reflexão e, assim, apreender sobre os modos de produção das sociedades cooperativadas, se consolida o reconhecimento de que o cooperativismo é campo fértil à Pedagogia, assim como a Pedagogia é ao Cooperativismo. Por essa via, a dimensão pedagógica que nos empenhamos no Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Cooperativas, promovido pela Faculdade de Tecnologia do Cooperativismo – Escoop, tem por objeto a sociedade contemporânea. A partir de uma visão macrossocial, desde os seus aspectos ambientais até as regulações que incidem as organizações autogestionárias, explicita-se as perspectivas, as possibilidades e os desafios de ‘ser, aprender, fazer e de conviver’ no mundo do trabalho, numa perspectiva pedagógica cooperativista.

A dimensão da Pedagogia no cooperativismo tem nos princípios 5 e 6 exemplares de entrelace. Educação, formação e informação, bem como intercooperação são ideias-força que se impõem pelo estabelecimento de sínteses em torno das tramas dos modos de produção no século XXI. São tessituras pedagógicas de outros modos possíveis de formação e capacitação na perspectiva cooperativa.

A proposta de matriz pedagógica insere metodologias de cunho estético desde os registros de memória, feituras cooperativas como a ‘mão na massa’ e de modos de endereçamento. De cunho igualmente ético, se constituem em ferramentas que promovem implicações entre teoria e prática. Com elas, a díade “ensinar e aprender a ensinar”, se revela pelo fortalecimento e convicção de que a subjacência da humanização é também utensilagem do cooperativismo.

Percorrer tal utensilagem é reconhecer o nicho pedagógico contido no cooperativismo. Nicho que pelo estabelecimento de diálogo entre experiências e saberes, contradições e ocultamentos, entre medos e ousadias dos futuros ou já gestores de cooperativas refuta o bancarismo educativo, assentado por rituais vazios, pela excelência memorística e conteudista.

A célebre ‘cabeça cheia’, promovida por ‘educações’ acríticas, não têm espaço no mundo cooperativo de ensinar e de aprender. É preciso dar vazão à cabeça ‘bem feita’ preconizada por Morin.

Por esse esboço, o espólio da humanização é questão recorrente na formação de gestores de cooperativas, pois incorpora reflexão sobre o trabalho a favor do ser humano e de suas relações com o mundo. É pilastra que congrega saberes fundamentais à inconclusão humana, num permanente movimento coletivo por possibilidades de existencializar o cooperativismo para além das cooperativas. Existencializar o cooperativismo para além dele, se torna alternativa de mundo mais sustentável, humanizado. Quiçá no chão das escolas brasileiras chancelemos outra cultura educativa pela humanização, a cultura pedagógica cooperativista.