Por que tomar decisões estratégicas em cooperativas está cada vez mais complexo?
Confira o artigo escrito pelo superintendente do Sistema Ocergs e facilitador do PRISMA, Mario De Conto.
Durante muito tempo, aprendemos a pensar a tomada de decisão como um processo relativamente linear: identificar o problema, reunir informações, avaliar alternativas e escolher aquela que apresenta a melhor relação entre riscos e benefícios.
Esse modelo continua sendo útil. O problema é que uma parcela crescente das decisões enfrentadas por dirigentes, executivos e conselheiros não cabe mais perfeitamente nessa lógica.
Na minha experiência como superintendente do Sistema Ocergs e no contato frequente com lideranças de cooperativas, percebo que as decisões mais difíceis raramente decorrem da ausência de alternativas. Muitas vezes, o desafio está justamente no contrário: existem diferentes caminhos possíveis, argumentos razoáveis sustentando cada um deles e consequências que não podem ser completamente antecipadas.
Essas são as chamadas questões cinzentas. Nelas, não existe necessariamente uma resposta tecnicamente correta esperando para ser descoberta. Existem escolhas que precisam ser construídas a partir de informações incompletas, interesses legítimos que podem entrar em tensão e diferentes perspectivas sobre o que significa tomar uma boa decisão.
Decidir exige ampliar perspectivas
Joseph Badaracco, professor da Harvard Business School e autor de Managing in the Gray, chama atenção para uma característica importante das decisões complexas: diante de problemas realmente difíceis, modelos analíticos são necessários, mas nem sempre suficientes.
Precisamos olhar para a situação por diferentes perspectivas. Isso implica perguntar não apenas “qual alternativa produz o melhor resultado?”, mas também: quais são as nossas responsabilidades? Quais valores precisam ser preservados? Quem será afetado por essa escolha? Que precedentes estamos criando? Que organização queremos construir no longo prazo?
E existe ainda uma pergunta particularmente importante: como explicaremos essa decisão daqui a alguns anos? Essa mudança de perspectiva altera a própria compreensão do papel do dirigente.
O bom decisor não é necessariamente aquele que encontra respostas rapidamente. É aquele que consegue formular melhores perguntas antes de chegar às respostas.
O desafio da incerteza
Há outro elemento que torna esse processo ainda mais complexo: decidimos olhando para o futuro, mas utilizando informações disponíveis no presente.
Tecnologia, inteligência artificial, transformações demográficas, mudanças regulatórias, novos comportamentos dos consumidores, alterações climáticas e instabilidade geopolítica estão modificando mercados e organizações em velocidade crescente.
Consequentemente, uma decisão pode ser racional com as informações disponíveis hoje e produzir um resultado diferente daquele esperado amanhã.
Por isso, precisamos também abandonar uma ideia perigosa: a de avaliar a qualidade de uma decisão exclusivamente pelo seu resultado.
Avaliar decisões estratégicas exige observar também a qualidade do processo decisório: quais informações foram consideradas, quais perspectivas foram ouvidas, quais premissas sustentaram a escolha, quais riscos foram assumidos e como os impactos foram avaliados.
Essa disciplina é especialmente importante para conselhos e lideranças responsáveis por decisões cujos efeitos ultrapassam seus próprios mandatos.
Um novo repertório para quem decide
Se o ambiente se tornou mais complexo, nosso repertório decisório também precisa evoluir. Precisamos compreender estratégia, economia e finanças, mas também comportamento humano, governança, ética, tecnologia e cenários. Precisamos desenvolver capacidade analítica sem perder a capacidade de julgamento. E, sobretudo, precisamos aprender a observar o mesmo problema por diferentes ângulos.
Porque decisões complexas raramente melhoram quando todos na sala enxergam a situação da mesma maneira.
É a partir dessa inquietação que me interessa participar do PRISMA, da Escoop. Mais do que transmitir ferramentas ou apresentar respostas prontas, vejo o programa como um espaço para ampliar perspectivas. Um ambiente no qual diferentes repertórios, experiências e formas de interpretar problemas possam ajudar dirigentes, executivos e conselheiros a lidar melhor com decisões para as quais talvez não exista uma resposta perfeita.
Em um mundo cada vez mais complexo, talvez essa seja uma das competências mais importantes de uma liderança: não simplificar artificialmente aquilo que é complexo, mas desenvolver a capacidade de decidir mesmo quando o caminho não está completamente claro.
Se você é conselheiro, superintendente, diretor ou executivo e deseja integrar o Prisma, aproveite a oportunidade de aprender com Mario de Conto.